Dionyzio é presidente da COMAT-CBIC e é formado em engenharia civil pela universidade de Brasília

Os programas de qualidade e as normatizações elevaram o padrão da construção civil nacional. Boa parte desta conquista se deve ao esforço da Comissão de Materiais, Tecnologia, Qualidade e Produtividade da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (COMAT/CBIC). Conversamos com o presidente da Comissão, Dionyzio Antonio Martins Klavdianos, para entender o que já é realidade e quais serão os próximos passos. O dirigente que ainda atua no mercado profissional e em mais três entidades do Distrito Federal – Sinduscon (DF), Coopercon DF e Coopercon Brasil – garante que os avanços obtidos pelo setor estão consolidados, porque são resultado do envolvimento de toda a cadeia: construtores, projetistas e fornecedores.

 

A COMAT/CBIC TEM UM PAPEL CONSOLIDADO EM INCENTIVAR E DISSEMINAR A NORMA DE DESEMPENHO, QUAIS AÇÕES ATUAIS ESTÃO SENDO DESENVOLVIDAS PARA AMPLIAR O CUMPRIMENTO DA NORMA NO SETOR DA CONSTRUÇÃO CIVIL?

A disseminação da Norma de desempenho e seu cumprimento é um dos principais trabalhos desenvolvidos pela CBIC. Nos últimos quase cinco anos de entrada em vigor da Norma lançamos ou fomos parceiros no lançamento de cerca de 15 publicações afeitas ao tema. O grupo de trabalho de normas técnicas, criado pela Cbic à época da Comissão de estudo para elaboração da NBR 15575, mantém-se ativo e participa da revisão e criação de outras normas técnicas, redigidas já levando em conta o escopo da norma de desempenho. A Comat/Cbic participou ativamente da criação dos cadernos de encargos coordenados pelo Ministério das Cidades, que incorporam quesitos da NBR 15575 e devem ser seguidos por toda a construtora que contrata financiamento público para a construção de empreendimentos de moradia, colaborou na revisão do Siac – PBQP-h (Sistema de Avaliação da Conformidade de Empresas de Serviços e Obras do Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat) e sua adaptação à NBR 15575. Além disso, o fato de atuar como ponto focal de demanda dos sindicatos e associações de construtores a transforma em importante difusor da referida norma técnica.

DESDE A PUBLICAÇÃO DA NORMA DE DESEMPENHO, A CBIC AVALIA QUE O SETOR CONSEGUIU SE ADAPTAR ÀS REGRAS E VEM CUMPRINDO AS EXIGÊNCIAS ESTABELECIDAS?

Não se pode dizer que o setor como um todo se incorporou às regras por completo, até porque a cultura que temos ainda não é a de priorizar qualidade e desempenho, além disso, os últimos três anos foram de forte crise econômica, o que obrigou as empresas a investirem bem pouco em gestão, desempenho, inovação. Todavia, a expectativa é a melhor possível, visto que as entidades representativas de todos os segmentos que compõem a cadeia da construção civil incorporaram a cultura e têm procurado disseminá-la entre associados, este movimento virtuoso fará efeito no médio prazo.

NO QUE TANGE OS MATERIAIS E O ATENDIMENTO À NORMA DE DESEMPENHO, QUAIS AS PRINCIPAIS DÚVIDAS QUE AINDA PERSISTEM ENTRE CONSTRUTORAS E FORNECEDORES?

Várias ainda, afinal, milhares de insumos compõem uma construção padrão, todavia o movimento é virtuoso. Há vários segmentos de materiais que estão se mobilizando para adaptarem seus produtos às novas exigências, mas mesmos os segmentos mais avançados neste aspecto são bastante estratificados, então existem muitos produtos inadequados.

Esta história é antiga, quantos materiais chegam às prateleiras das lojas sem qualquer selo de adequação à norma técnica? Deve haver maior aproximação entre projetistas e fornecedores, que devem fornecer aos projetistas catálogos ou fontes de consultas com informações técnicas completas e pormenorizadas. Deve-se saber que a norma de desempenho deixa bem clara a responsabilidade que cada um de nós, incorporador, construtor, projetista, fornecedor e até cliente tem com o desempenho do empreendimento, se não for cumprida, as consequências estão claras.

COMO A NORMA DE DESEMPENHO DA CONSTRUÇÃO CONTRIBUIU PARA O  DESENVOLVIMENTO DO MERCADO NOS ÚLTIMOS ANOS E QUAIS DESAFIOS FUTUROS?

Disseminou a cultura da qualidade com maior intensidade, o que garantiu a construção de obras de maior padrão técnico, valorizou laboratórios técnicos e a importância de seu trabalho e laudo, tirou o setor como um todo da zona de conforto e obrigou a correr atrás de pesquisa e melhoria. Para o futuro o processo tende a se consolidar cada vez mais, notadamente agora com a chegada do período de revisão da norma técnica. As obrigações de obediência à NBR 15575 por parte da construtora para a contratação de financiamento público de construção de moradia e o novo Siac repercutirão positivamente na melhoria de qualidade das obras populares, avanço notável para um país tão carente como o nosso.

AS INDÚSTRIAS DE PORTAS DE MADEIRA EVOLUÍRAM TECNICAMENTE E EM QUALIDADE AO PASSAR A SEGUIR A NORMA DA ABNT ESPECÍFICA PARA ESTE SEGMENTO E TAMBÉM À REGULAMENTAÇÃO QUE TRATA DO DESEMPENHO PARA CONSTRUÇÃO. COMO A COMISSÃO AVALIA INICIATIVAS COMO A DO PROGRAMA SETORIAL DA QUALIDADE DE PORTAS DE MADEIRA PARA EDIFICAÇÕES (PSQ-PME) QUE INCENTIVA A NORMALIZAÇÃO E A CERTIFICAÇÃO DE PRODUTOS?

Completamente coerente com a evolução de qualidade e mudança de patamar técnico previsto por aqueles que, como a COMAT/CBIC, acreditam na referida norma técnica. Até há bem pouco tempo a compra de portas de madeira, em termos de qualidade de produto, estava ligada quase que exclusivamente à marca, hoje uma construtora que queira um produto deste com qualidade e que atenda a algum dos três níveis de desempenho da NBR 15575 basta procurar no PSQ-PME e encontrará uma lista de bons fornecedores em condições de fornecerem os laudos e demais informações técnicas necessárias para uma compra adequada.

A COMAT CONVIDOU ALGUNS SETORES PARA DESENVOLVER UM GUIA DE ESQUADRIAS, O QUE MOTIVOU A COMISSÃO A LIDERAR ESSA AÇÃO NESTE SEGMENTO? COMO A PARTICIPAÇÃO DA ABIMCI CONTRIBUIU PARA O DESENVOLVIMENTO DESSE DOCUMENTO?

Desde a entrada em vigor da NBR 15575, o insumo mais sujeito a críticas foi o de esquadria e o sistema de vedação que mais preocupa o construtor, por causa principalmente da questão do desempenho acústico. O lançamento do guia, durante o 89º Enic (Encontro Nacional da  Indústria da Construção), é um marco para o setor e a demonstração cabal que estamos todos, construtores, projetistas e fornecedores, interessados na evolução do setor. Não há mais como o construtor que queira comprar esquadria com segurança, ficar lamentando que não tem fonte de consulta que lhe sirva. A participação da Abimci, assim como das coirmãs que representam os demais segmentos de esquadrias, juntamente com a Cbic e outras entidades, tem um valor simbólico de união em favor do bem comum.

Consulte o GUIA DE ESQUADRIAS.

QUAIS OUTRAS PUBLICAÇÕES LANÇADAS PELA CBIC PODEM SERVIR DE MATERIAL DE CONSULTA PARA AS EMPRESAS FORNECEDORAS?

Já lançamos cerca de 15 publicações, fora isso, em parceria com o Sinduscon/MG, fazemos um acompanhamento constante de todas as publicações lançadas em meio físico e virtual acerca do tema norma de desempenho, com a chegada do manual de instalações já são 42 no total. Não é pouca coisa não, o construtor e o projetistas não podem reclamar de falta de consulta para construir e projetar com qualidade.

UM DOS TRABALHOS DA COMAT É SER UM FÓRUM PERMANENTE DE DISCUSSÃO DA NORMALIZAÇÃO TÉCNICA, COMO AS CONSTRUTORAS PARTICIPAM DESSES DEBATES ACERCA DA NORMA?

Bimestralmente reunimos os membros da comissão, cerca de 40 representantes de vários sindicatos e associações de construtores de todas as regiões do Brasil, para reunião de dia inteiro nas quais este tema é sempre um dos debatidos. Fora isso, o grupo de normas técnicas faz reuniões específicas, também bimestrais, exclusivamente para tratar de normas técnicas. Participamos da criação e revisão de uma série de normas técnicas e à medida que transcorre o processo de discussão, reuniões específicas podem ser convocadas. Todo o conteúdo gerado é transmitido ao associado da CBIC por meio de seus boletins: CBIC Mais e CBIC Hoje.

A COMISSÃO DE MATERIAIS TAMBÉM TEM COMO UM DE SEUS FOCOS O DESENVOLVIMENTO DE PROJETOS PARA A INOVAÇÃO TECNOLÓGICA DA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO. NA PRÁTICA, QUAIS AÇÕES ESTÃO EM ANDAMENTO DENTRO DESSA LINHA?

A BIM (Modelagem da Informação da Construção) é hoje o tema que mais nos absorve em termos de ações. Conseguimos, a partir do lançamento da coletânea BIM para construtores em seis fascículos, formar uma vasta rede de parceiros pelo país, o que está se mostrando importante na prática com a realização de Road Shows regionais sobre o tema. O governo federal também se movimenta em favor do BIM e, o melhor, conta com nossa parceria para o sucesso da empreitada.

A FERRAMENTA DE GERENCIAMENTO DE PROJETOS BIM PROMETE SER UMA DAS INOVAÇÕES PARA A CONSTRUÇÃO CIVIL BRASILEIRA. COMO OS FORNECEDORES DA CADEIA CONSTRUTIVA PODEM SE PREPARAR PARA ATENDER ESSA NOVA FORMA DE PENSAR OS PROJETOS?

Parece-me que o mais importante é criarem sua biblioteca virtual com os produtos adequados para utilização dos projetistas e construtores que adotam a plataforma digital para desenvolverem seus projetos. Importante reforçar que muito do que se produz hoje pela indústria fornecedora não atende de fato às expectativas daqueles que utilizam o BIM na sua verdadeira essência.

COMO A CBIC INCENTIVA A INOVAÇÃO NA CADEIA DA CONSTRUÇÃO? DE QUE FORMA OS FORNECEDORES – COMO AS INDÚSTRIAS DE PORTAS – PODEM PARTICIPAR ATIVAMENTE DAS ESTRATÉGIAS DE INOVAÇÃO DAS CONSTRUTORAS?

A CBIC é a legítima representante da construção civil brasileira, pois representa o pequeno e médio empresário da construção, cerca de 95% do segmento, e tem compromisso claro com a inovação e produtividade. Toda a entidade que comunga deste compromisso deve à CBIC se juntar para desenvolvimento de projetos conjuntos, garantida a independência de cada uma, em favor do setor da construção e da sociedade brasileira. Aqui na entrevista listamos alguns deles, há mais, todos de algum impacto na cadeia justamente por não serem projetos  exclusivos da CBIC, mas obtido em parceria com diversas entidades.

Publicado originalmente na Revista Portas de Madeira nº3, publicação do PSQ-PME.

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